* Dâmaris Simon Camelo Borges
A educação infantil mudou muito, está mudando e, à medida que vamos entendendo o processo de desenvolvimento da criança, entendemos também que ela tem que mudar mais.
A Descoberta do Mundo Pelas Crianças
Vamos imaginar que a criança é um ser que está chegando ao mundo agora. Ela não conhece nada! Não entende como esse mundo funciona, o que precisa para sobreviver nele.
Capacidades Iniciais dos Bebês
Não que ela não seja competente. Longe disso, desde pequenina ela demonstra capacidades complexas para se comunicar. Com poucos dias de vida o bebê já reconhece a voz, o rosto e o odor da mãe; ele sorri, reconhece expressões emocionais e é capaz de alternar vocalizações com o adulto, para deleite nosso. Também consegue chorar quando sente algum desconforto, expressar diferentes emoções e imitar expressões faciais.
A Importância dos Cuidadores
Mas, assim como qualquer estrangeiro, não sabe como se comunicar na linguagem falada dos adultos. Não sabe nomear quando sente fome! Não sabe pedir para ser trocada quando sente desconforto térmico ou quando está suja! Não sabe dizer que está com medo quando sente medo! E assim por diante. E quem vai receber essa criança e mostrar o mundo a ela? Interpretar seus esforços comunicativos, ajudá-la a entender e nomear sentimentos, fatos? Os cuidadores! Pais, avós, professores, babás, ou seja, quem fica com ela a maior parte do tempo.

Educar e Cuidar: Pilares Inseparáveis
A partir daí fica fácil entender porque a base da educação infantil, mais especificamente o segmento da creche, tem como linha mestra de ação o educar e cuidar esse serzinho. Neste mundo em que ele acabou de chegar precisa que lhe ensinem tudo, inclusive como se relacionar com as pessoas e, enquanto ele convive com os cuidadores, ele vai aprendendo.
O Papel Fundamental do Brincar
Assim percebemos cada vez mais claramente que a rotina da criança na creche vai ser gerada em torno dos relacionamentos com a professora, que assume o papel fundamental de cuidar dessa criança, mostrando o mundo a ela, capitalizando sua curiosidade insaciável, ensinando-lhe como agir. Percebemos que rotinas geradas em torno de momentos de cuidados e nos intervalos desses momentos, projetos para a confecção de trabalhinhos pedagógicos onde a professora vai poder ensinar conteúdos a essa criança, se tornam sem sentido, inócuos, não levam a nada, a não ser ao estresse das crianças, da professora e da gestão que tem que lidar com os problemas gerados em um esquema artificial de convivência.
Aprendizagem Através da Interação e Experimentação
E a história de que a criança tem que brincar?
Sim, é isso mesmo! Mas entender que a criança ter que brincar não é o mesmo que deixá-la solta sem o olhar educador da professora que, ao mesmo tempo que pratica e ensina os cuidados básicos, educa a criança ensinando-a a viver nesse mundo da melhor forma possível. Como já discutimos em um outro artigo, esse olhar pedagógico é simples mas não é óbvio! A criança tem que brincar porque ela aprende brincando. Vamos trocar essa palavra brincar por interagir, experimentar. Observem a criança pequena quando ela se depara com um objeto ou espaço novo. Ela pega, apalpa, põe na boca, joga, puxa, sobe em cima, passa por baixo, põe na cabeça, empilha; é isso que significa a afirmação que a criança aprende brincando.
Enriquecendo as Experiências das Crianças
E o professor atento, que entende esse serzinho que está começando a conhecer o mundo, através do seu olhar educador, observando a criança, começa a preparar ambientes em que as crianças vão poder brincar e aprender agindo e não passivamente assistindo às explicações dos professores. Imitando as pessoas de seu convívio nos espaços que a professora organizou, brincando, elas tentam entender como age uma mamãe, por que a mamãe age de uma forma ou de outra, vão brincar de cozinhar, de vestir roupas de adultos, fazer compras, brincar com dinheirinho, imitar cenas presenciadas do pai, da professora, da avó, do avô e, assim por diante.
E se o professor for realmente um bom educador ele vai além dos objetos de convívio, comum na casa da maioria das crianças. Vai enriquece as experiências dos seus alunos, colocando objetos novos que despertem o interesse e a curiosidade dessas crianças. Assim os bebês vão conhecendo o mundo através da condução amorosa de um educador que não está preocupado em cumprir tarefas mas, em introduzir as crianças no mundo de uma maneira gentil e atenta.
Cuidados Básicos como Momentos de Aprendizagem
E os cuidados básicos? Sim eles não foram esquecidos! Qual é a maneira mais adequada de uma pessoa se alimentar? É óbvio que cada um faz como pode, mas, a escola tem a obrigação de proporcionar a experiência mais adequada. Calmamente! Experimentando os sabores, aprendendo a gostar de alimentos saudáveis, aprendendo a se comportar em uma mesa de refeição de acordo com a nossa cultura, dialogando com quem está a sua volta mas, sem incomodar! E o banho? A higiene? O sono? O princípio é o mesmo! Entender aquilo que precisamos fazer para uma existência mais saudável e praticando as rotinas de cuidado como parte de uma vida mais tranquila, respeitosa e sem estresse.
Impacto das Relações com Professores e Pais
Dois aspectos precisam ser ressaltados.
Primeiro, é que a forma como as professoras e pais se relacionam com as crianças é a forma que elas vão, muito provavelmente, levar para o mundo. Professores e pais estressados, agressivos, indiferentes, amorosos, atenciosos, tendem a educar as crianças à sua imagem e semelhança.
Segundo, quanto maiores forem as crianças que chegam na creche, maiores terão sido as experiências que já vivenciaram em casa. Cabe às professoras, portanto, mostrar a essas crianças que existem mundos diferentes com formas de relacionamento diferentes do que elas já vivenciaram.
Introduzindo Novos Mundos e Relações
Para encerrar, estaremos dando um grande passe em relação às mudanças que referimos no início do artigo se começarmos a usar termos mais adequados à educação que queremos. Do momento em que a criança entra na creche, até a hora que ela sai, não existem momentos pedagógicos e momentos de cuidado, tudo é educar e cuidar. A criança não tem mais que fazer tarefas, ela tem que viver! Vivenciar experiências.
Vivenciar, Não Apenas Fazer Tarefas
E, por fim, a professora não tem que dar aulas, elas têm que organizar os ambientes para que as crianças vivenciem experiências, tem que enriquecer os ambientes e, consequentemente, as experiências, sempre que possível! E aí sim, ter um olhar com intencionalidade pedagógica sobre as experiências vivenciadas pelas crianças: “O que eu posso fazer para enriquecer esse ambiente? Que objetos eu posso acrescentar? Quais já foram muito usados e já perderam o interesse? Onde posso levar essas crianças para que elas vivenciem experiências semelhantes, mas, de maneiras diferentes? Em síntese, o trabalho do professor é se envolver com a criança de uma maneira leve, divertida, respeitosa, se encantando com a curiosidade deles e proporcionando oportunidades de as crianças ampliarem os seus horizontes. Se o trabalho do professor estiver pesado está errado! Tem que ser leve! Leve como é a criança! Divirtam-se com elas nesse Mundo Novo! Deem as boas-vindas!

Alfabetização em Valores Humanos e
também diretora do IEPT, orientando a
equipe docente com formações continuadas
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