ESPERANÇA: A estrela que brilha tanto mais quanto melhor se enxerga a realidade espiritual da vida

*Edna Maria Marturano

Companheira do ser humano desde sempre, a esperança está presente nas tradições do antigo Egito, na cultura da Índia milenária, na mitologia grega, nos ensinos das religiões. Ela compõe, com a fé e a caridade, a trilogia das virtudes evangélicas[1]. Neste texto, refletimos sobre o lugar da esperança na atualidade, com ênfase na perspectiva espírita.

A esperança hoje

O tempo passa e a nobre virtude não perde o prestígio. Atravessou, com diferentes roupagens, a idade média e o renascimento. No Século XX, sobreviveu a duas guerras mundiais. Hoje, é bandeira dos movimentos coletivos na luta por um mundo mais justo e sustentável.

Definida como uma postura cognitiva, emocional e motivacional positiva em relação ao futuro, tem sido valorizada na psicologia como fator de bem estar pessoal. Resultados de pesquisas justificam o destaque: eles mostram que ter esperança contribui para a saúde física e mental, assim como para a longevidade.

Pessoas mais esperançosas apresentam menos sintomas de depressão e ansiedade, demonstram maior satisfação com a vida, experimentam maior sensação de felicidade. Em face de doenças graves como o câncer, esperança está associada à recuperação melhor e mais rápida. Os cultivadores da esperança têm melhor saúde cardíaca, estão menos expostos ao risco de doenças cardiovasculares e se recuperam mais prontamente de cirurgias. E também vivem mais, em comparação a pessoas menos esperançosas.

Mas, atenção! A esperança que faz bem é uma virtude proativa, dinâmica, realista, não passiva.

O lugar da esperança no Espiritismo

A esperança é tema recorrente na literatura espírita[2]. Uma das principais obras de Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, é reconhecida como o Livro da Esperança[3]. E não é para menos, desde que Allan Kardec trouxe à luz fenômenos que fundamentam em fatos a crença religiosa na imortalidade da alma, projetando o futuro ao infinito. A cosmovisão espírita, integrando espaço e tempo em um processo evolutivo universal, descortina horizontes ilimitados ao futuro individual e coletivo dos habitantes deste planeta.

Para os céticos, acena com possibilidades reais de uma ordem universal que venha a substituir, na base de fatos e argumentos lógicos, a pobreza do acaso como explicação para a vida. Para os crentes na sobrevivência após a morte, oferece elementos de certeza; para os que resvalaram em delitos graves, propõe a justiça restaurativa, que resgata a dignidade daquele que errou, por meio da oportunidade de reparar os seus erros no dispositivo da reencarnação. Para todos, dá sentido à avalanche de dores e sofrimentos que por vezes nos atropelam na vida pessoal e coletiva. E a cada um, a esperança de pilotar o próprio destino, sob a proteção de Deus. que tudo provê para que seus filhos alcancem a perfeição por meio da experiência, com o mínimo de sofrimento.

Entre o passado e o futuro, a esperança de superação

Na perspectiva espírita, evoluem tanto as almas como os mundos. A Terra é mundo de expiação e provas, um tipo de escola-hospital-reformatório em que reencarnam espíritos com distúrbios conscienciais decorrentes de delitos praticados em existências pregressas. Portanto, durante a encarnação, esses espíritos, que somos nós, têm programas a cumprir, em geral voltados a três finalidades: (a) progresso espiritual; (b) cura de moléstias da alma como egoísmo, orgulho… (c) expiação de delitos e resgate de dívidas contraídas perante o próximo e a consciência.

Em outras palavras: somos espíritos imperfeitos, encarnados em processo evolutivo, sob tutela da justiça cósmica restaurativa, compromissados com uma programação prévia que aceitamos antes de reencarnar. Dependendo dos débitos contraídos em existências anteriores e dependendo também das nossas necessidades educativas para o progresso espiritual, esse programa reencarnatório envolve desafios muitas vezes dolorosos que nos vão testar a resistência moral no limite das nossas forças.

É nessas horas difíceis que nos protege a esperança, ancorada nas realidades espirituais.

O espírita é então alguém consciente das finalidades da existência, movido pela esperança de realizar o seu programa reencarnatório.

Como conhecer esse programa? É simples: ele se esboça nos deveres de cada dia. O correto e integral cumprimento desses deveres, dos mais singelos aos mais desafiadores, é o propósito da existência, e o Espiritismo nos alenta a esperança de concretizar esse plano, carinhosamente monitorados pelos guias espirituais.

Desse modo, a visão espírita intensifica em seus adeptos o sentimento da esperança, dando sentido e propósito à existência. Ao abrir horizontes à realidade espiritual, ao estender a vida ao infinito, ele relativiza a importância das vicissitudes, dá significado ao sofrimento e multiplica as possibilidades de êxito e realização.

A esperança do Céu

Os adeptos do Espiritismo alimentam, como todo ser humano, as esperanças da existência terrestre, de realizar sonhos e superar desafios, com base na confiança em Deus e em si mesmos. Só que o espirita sintonizado com as realidades espirituais cultiva algumas esperanças não muito comuns. A esperança de crescer se projeta no plano da evolução pessoal e estimula o esforço de autoeducação dos sentimentos, para se tornar alguém melhor.  A esperança de pagar as dívidas ajuda a atravessar os dias difíceis sem revolta, em ação construtiva. A esperança de voltar bem para casa tem relação com o retorno ao mundo espiritual, sem comprometer o futuro com novas dívidas.

O propósito maior de todas essas esperanças é atender à paciente espera de Jesus Cristo por nossa regeneração, a esperança celeste projetada em nós, para que desenvolvamos no íntimo as virtudes que vão realizar o apelo do Mestre – Brilhe vossa luz! [4]

Até que nossa luz brilhe por si, podemos ainda cultivar a esperança solidária, o desejo de compartilhar as noções espíritas cristãs, para que o próximo também se beneficie da claridade que nos felicita.

Sim, desnecessário esperar ter luz própria para isso! Podemos desde já, por meio da boa vontade, orientar o espelho da nossa mente para o sol do Evangelho e, como o luar, refletir essa luz em toda ação concreta que pudermos realizar no bem, ainda que palidamente: conversando, ajudando, tolerando, perdoando, tendo paciência, dando o nosso testemunho de resignação aos desígnios de Deus e de fé no futuro.

*Edna faz parte da Diretoria do IEPT, sendo atualmente 2ª tesoureira.

[1] Paulo, I Co, 13:13.

[2] Para detalhes, siga o link Emmanuel.

[3] O Livro da Esperança, psicografado por Francisco Cândido Xavier, pelo espírito Emmanuel. Editora CEC.

[4] Mt, 5:16