Dâmaris Simon Camelo Borges *
Olá, pessoal!
Fico imaginando as dúvidas surgindo na cabecinha de alguns cuidadores, pais, professores: “Então a criança não tem que aprender a emprestar os brinquedos? Vai crescer uma egoísta?”
Calma aí! Não é bem assim. O vídeo alerta para algumas questões importantes e que em geral não são consideradas quando se pretende ensinar a criança a dividir suas coisas com os amiguinhos, como por exemplo a questão da coerência: Se eu, como adulta, não posso ser obrigada a emprestar as minhas coisas, por que a criança pode? Se falharmos na questão da coerência em relação à educação das nossas crianças, corremos o sério risco de falharmos em desenvolver nessas crianças as noções de justiça, equidade, generosidade, empatia, propriedade, entre outros.
Mas, então, o que fazer?
Existem duas questões importantes a serem consideradas na hora de se pensar na educação da criança: a propriedade privada e a propriedade coletiva, por exemplo, os lápis que são da criança ou os lápis que são da sala de aula; e o que se pretende quando se obriga uma criança a dividir o brinquedo. No primeiro caso, o brinquedo é da criança, ok, já entendemos, ela não é obrigada, mas, no caso do brinquedo coletivo, a criança precisa entender que se ela tem direitos, o outro tem também! Abaixo, veremos alguns comentários mais específicos sobre como lidar de maneira prática com a situação.

O outro aspecto da questão é que, apesar de a criança não ser obrigada a dividir o brinquedo que é dela, isso não significa que nada deva ser feito. Sendo o humano um ser social e codependente, segundo Piaget, a convivência é regida basicamente por dois tipos de relação: ou a coação ou a cooperação. Determinar para que tipo de relação vamos educar os nossos filhos, implica em determinar o nosso ideal de mundo, um mundo onde prevaleça a lei do mais forte ou um mundo onde todos se ajudam cooperando uns com os outros. Ensinar a criança a ser generosa, cooperativa, empática, é muito diferente de obrigá-la a dividir o brinquedo. Quando ensinamos uma criança a ser empática, generosa e justa, ela naturalmente vai se tornar sensível aos desejos e necessidades do próximo e de si mesma. Saberá pesar os desejos e as necessidades próprias e contemporizar com os desejos e as necessidades dos outros.
Refletir sobre como educamos as nossas crianças, facilita o processo educativo porque torna o cuidador consciente de suas ações e consequências pertinentes. Não podemos esquecer que educação é processo e como em uma engrenagem, uma fase influencia a outra.
Vamos ser diretos?! Afinal de contas, como agir?
No caso da origem da propriedade, o brinquedo sendo da criança não podemos obrigar e, no caso de o brinquedo ser coletivo, temos que investir firmemente na ideia de que todos vão usar e que ninguém pode pegar tudo ou impedir os outros de pegar. Essa ideia, quando aplicada de maneira firme e coerente na educação das crianças, está na base da formação do conceito de justiça. Vamos ver algumas ideias de como isso funciona na prática; sim! São ideias! Porque passamos longe de achar que as nossas ideias são as únicas que rodam o mundo. Com certeza existem pessoas muito criativas, experientes, antenadas que têm ideias diferentes das nossas.
Na prática, tudo começa na organização: é preciso que haja lápis suficiente para todos, especialmente quando lidamos com crianças na faixa etária de creche, ou seja, até os 3 anos; muitos lápis cor-de-rosa, muitos azuis, verdes, amarelos e de todas as outras cores para que não falte para ninguém; ou, no caso de serem brinquedos, muitas bonecas iguais, carrinhos entre outros. O segundo passo é o acordo prévio, conversar com eles explicando que os lápis serão colocados na mesa e que só pode pegar um de cada vez.
Terceiro, a professora acompanhar esse processo é muito importante! Como? Centrando a atenção das crianças no que elas estão produzindo e não na propriedade do brinquedo ou do lápis. Ou seja, interagir com a criança o tempo inteiro motivando e regulando as ações no cumprimento do combinado faz toda a diferença! Interagindo e estando atenta aos movimentos das crianças, as educadoras não perdem tempo e inibindo ações que tolhem os direitos dos outros. É muito comum a criança sentar na mesa, esticar o braço e trazer para junto de si todas as peças dos quebra-cabeças, os brinquedos, os lápis ou qualquer outra coisa. Atentos à postura educativa, ou a criança cumpre o combinado ou ela vai sentar ao lado da professora e a professora vai dando o lápis para ela, um a um, mostrando como tem que fazer. O argumento é simples: Os lápis são de todos e você não quer deixar os coleguinhas pegarem, então eu vou te ajudar. E não! Não é castigo! Não é castração! É ajudar a criança a entender que todos têm os mesmos direitos, é ajudá-la a se autorregular – ação-consequência! Periodicamente a professora deixa que ela mesma pegue os lápis ou brinquedos e se fluir bem ok, se voltar a se apossar de tudo, repete o processo. Mas, sempre até a criança entender e nunca como castigo.
Muito bem, e quando a criança é a dona do brinquedo? Novamente a participação da professora é vital! Pode-se combinar um dia determinado em que todas deverão trazer o brinquedo para a escola, ou, elas trazem todos os dias, mas, a professora combina a hora de guardar. Permitir que algumas crianças tragam e outras não é confusão na certa. Novamente vamos lembrar: “O que é combinado não é doído!”. Com crianças tão pequenas o acordo tem que ser feito junto aos pais.
Paralelamente a essa intervenção mediada pela professora – lembrando que é preciso ter em mente a intenção de direcionar a atenção das crianças para a brincadeira – a contação de histórias é sempre uma ferramenta importante quando queremos trabalhar valores com as crianças. Mesmo que a professora tenha dificuldade em encontrar histórias cujo tema central seja a partilha de bens, existem muitas histórias infantis que falam sobre generosidade, compaixão, cooperação e justiça, valores que por natureza impulsionam a ação de compartilhar.
Gostaria de lembrar aqui que, com crianças tão pequenas, a técnica da contação de história faz toda a diferença; recursos áudio visuais, leitura dramatizada que possibilite a participação das crianças, dramatização intensa são recursos necessários para se atingir a faixa de desenvolvimento que estamos almejando.
Por fim, lembramos que crianças nessa faixa etária estão saindo de um meio em geral seguro, conhecido e com padrões de relacionamentos muito bem estabelecidos com figuras de afeto como os pais, irmãos e avós, para entrar em um meio desconhecido, a escola, com pessoas estranhas, sem vínculo afetivo e que, muitas vezes, exigem delas comportamentos que elas estão longe de conseguir entender e muito menos desenvolveram competências para realizar.
Ter generosidade, empatia e afeto por essas crianças, em resumo, é meio caminho andado para atingir os objetivos educativos a que nos propomos.
*Dâmaris Simon Camelo Borges é autora do livro Alfabetização em Valores Humanos e também diretora do IEPT, orientando a equipe docente com formações continuadas.