Alfabetização e Letramento na Educação Infantil

Dâmaris Simon Camelo Borges *

Alfabetização e Letramento na Educação Infantil. Será? E mesmo entre os profissionais considerados especialistas no assunto, a dúvida ainda persiste na prática das nossas salas de aula da Educação Infantil.

Criança tem que brincar!! E?? Não pode brincar com as letras? Com as palavras? Com as frases, com os textos??? Uma coisa é excludente da outra?

Para esclarecer essa dúvida, vamos entender um pouco mais sobre o assunto.

Começando pelo entendimento do que seria esse “brincar”, adotamos a definição como sendo se divertir, explorar livremente, experimentar sem compromisso com o objeto de conhecimento, com as interações que lhe são proporcionadas.

Que a alfabetização deverá ocorrer no Ensino Fundamental não resta dúvida, mas, na Educação Infantil (EI) é que persiste a hesitação, o medo, a insegurança quando se trata da língua escrita. Na EI a criança desenvolve o entendimento do mundo.

A BNCC (BRASIL, 2017) nos ajuda a entender a nossa atuação quando define, como um dos direitos das crianças que frequentam a Educação Infantil “…reconhecer-se como sujeito de uma sociedade, por meio de práticas pedagógicas que valorizem o brincar, as interações, o explorar da criança (p.1)”.

Se é direito da criança “interagir e explorar”, onde se encontra a justificativa da exclusão das práticas pertinentes ao mundo letrado? Se a criança tem o direito de se perceber como um sujeito pertencente a uma sociedade letrada, ou seja, que tem incorporadas na sua rotina práticas de leitura e escrita, obviamente a criança precisa exercitar através da brincadeira o conhecimento, o entendimento, a funcionalidade desse mundo letrado.

Assim como a criança imita a mãe para entender por que ela age dessa ou daquela maneira, assim como ela explora o computador, o celular, o parque de diversões, ela tem o direito de explorar as letras, palavras, textos seja na forma de livros, jornais, poesias, músicas ou em qualquer outro formato e funcionalidade.

Como ela vai explorar e se expressar no mundo letrado, se dentro das escolas esse mundo lhe é vedado? O direito de “participar” coloca a criança como autora, como protagonista do seu processo de desenvolvimento. Para isso, a criança precisa explorar todos os materiais, como vemos no trecho abaixo extraído do documento:

Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia. (BRASIL, 2017, p.38).

A BNCC faz uma referência direta à linguagem escrita no campo escuta, fala, pensamento e imaginação. “Na Educação Infantil, a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer.” (BRASIL, 2017, p.42). Entende-se com essa referência direta que o professor da EI não vai alfabetizar, mas, a partir da curiosidade das crianças, ampliar a percepção que elas têm dessa linguagem tão relevante na sociedade em que estão inseridas.

Mas, e como fazer isso sem estar alfabetizando? Como deveria ser todo assunto abordado na EI: partir do interesse das crianças! Interesse que pode ser incentivado através da criação de um “ambiente de letramento”.

Assim como o educador cria, em brinquedotecas ou mesmo em sua sala de aula, campos de experiência onde a criança pode brincar de representar o que vê e vivencia, como por exemplo, quando ela brinca de casinha, brinca de escolinha, de mecânico, caminhoneiro, o educador deve proporcionar o maior número e a maior diversidade possível de experiências e vivências em relação à escrita, para que a criança possa explorar e conhecer, utilizando textos de diferentes gêneros, ou se preferirem, de diferentes funcionalidades como, poemas, fábulas, histórias em quadrinho, deixando que a criança explore e manuseie para criar uma familiarização com a língua escrita.

Explorar e manusear é um passo importante do aprendizado que, em muitas escolas, tem sido negado às crianças, em uma espécie de “tabu”, baseados em uma interpretação equivocada da teoria. Como resultado dessa atitude, os alunos são lançados nas séries iniciais do Ensino Fundamental sem terem tido oportunidades de entender minimamente esse mundo das letras, sem terem formado as conexões neuronais necessárias para ancorar o efetivo processo de alfabetização.

As crianças que vivenciam em suas casas esse processo de entender o mundo das letras, que podemos chamar daqui para a frente de Letramento, são menos prejudicadas porque a elas são oferecidas oportunidades de vivenciar e explorar a escrita e a leitura junto aos pais e/ou cuidadores. As que são menos favorecidas de vivenciar de diferentes formas a língua escrita já entram no EF, em muitos casos, severamente prejudicadas:

Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua. (BRASIL, 2017).

Brincando, divertindo-se e explorando, a criança começa a entender que o que falamos pode ser registrado de diversas formas. Uma pessoa que não saiba ler e escrever, mas entende a função social da escrita, brinca de escrever livremente, reconhece uma embalagem apenas pelo seu rótulo, brinca de escrever bilhetes e convites, ela é considerada letrada, mesmo sem saber ler; ela está entendendo para que serve a escrita e que essa escrita tem diferentes formatos, de acordo com o objetivo de comunicação.

A professora da Educação Infantil tem um papel importante nesse contexto, pois apresenta de forma institucionalizada o mundo da escrita, e a criança vai atribuindo significando a um novo tipo de linguagem, além de todas as outras que ela já conhece.

Resumindo, uma pessoa é considerada alfabetizada quando ela consegue ler e escrever. E, quando ela consegue entender e compreender para que serve essa linguagem, ela é denominada letrada. E quanto às práticas, como fazer esse letramento mesmo? Leia, leia muito! Diferentes tipos de textos que sejam interessantes para as crianças. Deixe que ela participe, ou melhor, convide-a a participar de todas as oportunidades que ocorrerem de escrever: convites para festas na escola, bilhetes para os pais ou responsáveis, releitura de histórias, notícias sobre exposições da sala para serem colocadas no mural, lista de compras para fazerem uma receita, entre muitas outras oportunidades.

E, a par dessas ações, assim como se organizam campos de experiências, também conhecidos como cantos onde a criança tem a oportunidade de vivenciar diferentes tipos de brincadeiras, como a de casinha, por exemplo, que se organize também o canto da linguagem, da leitura, onde a criança terá à sua disposição diferentes tipos de materiais para manipular, brincar, explorar; teatros, desenhos, jornais, músicas para ouvir e a letra escrita em papel pardo bem grande e ao alcance da criança, revistas, livros sem textos, só com textos, com textos e figuras, papeis, diferentes tipos de lápis e giz, nomes dos ambientes escolares fixados na altura da vista da criança, nomes nos objetos da sala, números, biblioteca de sala, letras para explorar, quebra cabeça com imagens e palavras, entre muitos outros materiais: em um momento o professor motiva, desperta o interesse e, em outro momento, a criança relembra, brincando e explorando.

Com os bebês não trabalhamos, correto? Errado! Assim como eles exploram caixas de papelão, bolas, carrinhos, deixe que explorem letras grandes para brincarem, chamadinhas com a foto deles, livrinhos com e sem palavras; que eles disponham de horário de leitura regular nos dias da semana, biblioteca de sala, papeis e lápis para explorarem. Não podemos esquecer que o desenho é uma fase anterior ao processo de alfabetização.

E as escolas que se empenham em alfabetizar na EI? Tão desastrosas quanto as escolas que deixam a criança solta o dia inteiro, sem um planejamento, sem um propósito educativo, ou as que têm excelentes projetos, altamente motivadores, organizados, que engajam a criança com alto nível de interesse, mas restringem o mundo letrado com a justificativa de que ali não se alfabetiza.

Para finalizar, se as crianças brincando na EI desenvolvem importantes habilidades, necessárias ao desenvolvimento do ser integral, na Educação Infantil também se desenvolvem habilidades e competências que são importantes ao processo de alfabetização…deixemos que elas explorem esse maravilhoso mundo letrado!

* é autora do livro Alfabetização em Valores Humanos e também diretora do IEPT, orientando a equipe docente com formações continuadas.

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017.