Natal: Tempo de celebrar, tempo de refletir

*Edna Maria Marturano

O que celebramos no Natal? A visita do Papai Noel? O dia da troca de presentes? O aniversário de Jesus? Com a aproximação da tradicional festa, relembremos aquela noite de sombras e luzes, sua face poética e sua substância profundamente simbólica.   

Nascimento de Jesus: entre a indiferença dos homens e a solicitude dos anjos

Jesus nasceu em circunstâncias difíceis. Seus pais estavam longe de casa, a caminho de Belém, atendendo a um decreto de recenseamento do imperador romano. A aldeia estava repleta de forasteiros que lá se achavam pelo mesmo motivo. José e Maria encontraram a hospedaria local já lotada, e ninguém ali se sensibilizou com a condição daquela jovenzinha entrando em trabalho de parto. Sem opção, José abrigou a esposa em um estábulo, cedido talvez para o pernoite do animal que os conduzira na viagem.

E ali Maria deu à luz seu bebê, na escuridão da noite, sem qualquer conforto ou recurso. Como bercinho improvisado, a manjedoura dos animais.

Mas, se aquela pequena família recebe de alguns somente indiferença, os anjos se movimentam em busca de auxílio junto a corações mais sensíveis. Encontram ressonância entre os pastores de vida simples que guardavam seus rebanhos no campo, na vigília da noite, olhos postos no céu. Segundo o evangelista Lucas, uma legião resplandecente se faz visível e um anjo anuncia o nascimento do Cristo Salvador. Subentendendo a necessidade de socorro urgente, acrescenta: “encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura” (Lc, 2:12).  E os pastores ouviram o cântico dos anjos: Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens…

A visita dos pastores

Extasiados, os pastores se apressam até Belém. Dessa primeira visita ao Menino Jesus nada se sabe. Mas podemos imaginar as pequeninas dádivas de solidariedade àquela família em desvalimento: uma candeia para alumiar a noite, alimento e repouso para os pais exaustos, vigilância ao redor do estábulo, providências de remoção da família para um domicilio adequado…

Os visitantes ilustres chegariam mais tarde – os abastados magos do oriente. Mas então já estava selada, na visita dos pastores, a aliança de Jesus com a gente simples do povo. A sua vida missionária seria um constante devotamento aos esquecidos do mundo que, em toda parte, suportam nos ombros o peso da pirâmide social, em cujo topo rebrilham os afortunados.

O simbolismo da noite sagrada

A noite de Natal está repleta de símbolos.

A hospedaria lotada é bem a imagem da nossa indisponibilidade para as coisas do espírito: trazemos a mente e o coração entulhados de ideias e anseios centrados nos interesses imediatos da existência. Com isso, negamos espaço aos apelos do Alto para que prestemos mais atenção e cuidado aos nossos interesses espirituais. Assim como a sagrada família buscou a hospedaria, as oportunidades de crescimento espiritual e serviço ao próximo nos batem à porta, mas ficamos indiferentes.

Na estrebaria singela temos representada a Natureza, cenário permanente da missão de Jesus, seja nas pregações às margens do lago e nos montes, seja nas orações do jardim. A Natureza também é tema predileto do Mestre na poesia das parábolas: o grão de mostarda, a ovelha desgarrada, a figueira que secou, os trabalhos na vinha, o semeador, as aves do céu e os lírios do campo…

A manjedoura simboliza a humildade, chave de todas as virtudes. Jesus foi dela a personificação máxima. Um dos seus últimos legados aos discípulos foi um gesto simbólico de humildade, ao lavar os pés de cada um na última ceia. Desse modo, a sublime virtude esteve representada desde a alvorada até o crepúsculo da existência terrestre de Jesus, a nos alertar para seu cultivo na nossa vida diária.

O contraste entre o abandono do mundo e o socorro do céu, aureolado de luzes e cânticos, é bem um prenúncio das bem aventuranças do Sermão do Monte, revelando que ninguém na Terra está esquecido de Deus.

O eterno cântico dos anjos

E os versos entoados pelos anjos, milhões de vezes repetidos, ao longo dos séculos, nos templos das religiões cristãs? Qual a sua mensagem?

Emmanuel, em bela síntese[1], assinala naqueles três pequenos enunciados todo o programa a ser cumprido pelo Divino Mestre em seu apostolado.

Glória a Deus nas alturas!

Jesus glorificou a Deus em todos os momentos de sua missão, consagrando-se integralmente à difusão da lei universal instituída pelo Criador. Disseminou ideias avançadas de igualdade, fraternidade, liberdade de pensamento e responsabilidade individual, atraindo sobre si e sobre seus seguidores a ira dos poderosos de seu tempo. E se manteve fiel aos princípios divinos que ensinava, até o sacrifício extremo

Paz na Terra

Ninguém como ele promoveu a paz com tanta ênfase, tanta insistência, tanta perseverança e tanta coragem. Jesus Cristo pregou e exemplificou a não violência, a brandura, a indulgência, a conciliação, o respeito à autoridade pública, o amor aos inimigos, o perdão ilimitado das ofensas.

Boa vontade para com os homens!

E que dizer da sua inesgotável boa vontade? O Mestre viveu para servir. Sempre cercado por numerosa multidão, curou enfermos, levantou paralíticos, deu visão aos cegos, limpou leprosos, aliviou obsidiados, dialogou amistosamente com obsessores. Com infinita paciência, esclarecia aos fariseus que o interpelavam ardilosamente.  Transformou água em vinho na festa de casamento de um amigo, multiplicou pães e peixes para o povo faminto, despertou Lázaro no sepulcro. Ele, que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça, distribuiu seus tesouros espirituais, suscitando alegria e esperança nos corações. Sua boa vontade era tamanha que depois de crucificado regressou, vitorioso sobre a morte, para levantar o ânimo abatido dos amigos que o haviam abandonado, com medo das perseguições.

E nós?

Natal, aniversário de Jesus: que vamos oferecer a ele? Não temos o incenso da perfeita fidelidade a Deus nem o ouro do amor incondicional ao próximo. Como os pastores, temos apenas a migalha da boa vontade para mobilizar cada dia. É o presente que o Mestre espera de nós.

*Edna faz parte da Diretoria do IEPT, sendo atualmente 2ª tesoureira.


[1] Emmanuel. O evangelho por Emmanuel: comentários ao Evangelho segundo Lucas. Psicografia F. C. Xavier. Ed. FEB.