O que temos para o almoço?

 Notas sobre alimentação espiritual

*Edna Maria Marturano

 Alimentação é assunto importantíssimo. Afinal, é por meio dela que nutrimos nosso corpo. Tanto assim que a Organização das Nações Unidas instituiu datas para reflexão a respeito, como o Dia Mundial da Segurança dos Alimentos, em 7 de junho. Igualmente importante, mas praticamente ignorada, é a alimentação espiritual, que garante a saúde da alma. Neste texto, reunimos algumas reflexões sobre o tema segundo a interpretação espírita, buscando implicações e aplicações para a nossa vida prática.

Amor, alimento das almas

 Esse é o título dado por André Luiz ao capítulo do livro Nosso Lar[1] em que trata da alimentação espiritual. Como explicado no texto O Poder do Pensamento, absorvemos os pensamentos uns dos outros, em regime de sintonia mental e permuta de ideias e sentimentos, palavra e ação.

Assim sendo, é pelo pensamento que nos alimentamos espiritualmente. Tudo que nos fisga a atenção e desperta nosso interesse constitui alimento espiritual que estamos selecionando para consumo próprio. E as fontes são variadas: conversas, grupos do WhatsApp, leituras, filmes, noticiário… Mas a fonte com maior concentração de nutrientes espirituais é a convivência entre pessoas afins. Veja o que escreve o autor sobre isso: “…a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal – patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo – constituem sólidos alimentos para a vida em si”.

“…a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba. Almas gêmeas, almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos. Unindose umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano de redenção. Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada.”

Hábitos alimentares nos domínios da alma

 Sim, nem sempre os afetos mais caros estão por perto. O dia a dia não é tecido só de convivência fraterna e amorosa. Muitas vezes, envolvidos na rotina, acabamos por adquirir hábitos alimentares pouco saudáveis para a alma, consumindo alimentos deteriorados à mesa de conversações deprimentes, reportagens alarmistas, difamações, filmes violentos, trocas de insultos pelas redes sociais e outras fontes de veneno disfarçado de entretenimento ou notícia. Alguns até mesmo atraentes e saborosos ao paladar, como a maçã que a bruxa ofereceu a Branca de Neve.

São substâncias mentais tóxicas, que nos perturbam sem que percebamos, de modo que seu consumo regular altera para pior nossas ideias e emoções, fazendo-nos tender para o desânimo, o humor deprimido, a apreensão, a inquietude, a irritabilidade e outros estados enfermiços da alma. Ou seja, nesse assunto de alimentação espiritual está em jogo o nosso bem-estar e a nossa saúde emocional.

Por essa razão, vale a pena dedicar alguns minutos do nosso tempo para refletir e nos questionar: – Que alimentos buscamos? Como selecionamos nosso alimento espiritual à mesa posta dos ambientes que frequentamos, sejam eles reais ou virtuais?

“Eu sou o pão da Vida”

Felizmente, temos à disposição, de graça, um cardápio com opções de alto valor nutricional, à base de ingredientes não tóxicos, não deterioráveis, com validade permanente. É o cardápio concebido e preparado pelo chef Jesus Cristo. Desde o primeiro dia de sua missão, o Mestre foi apresentado simbolicamente à humanidade como portador de pão espiritual: não por acaso, seu berço foi a manjedoura, cocho de alimento dos animais. O pão, símbolo do alimento da alma, está presente em diversas passagens do Evangelho. Quando disse: – Eu sou o pão da vida, Jesus se referia ao alimento espiritual que serviu com fartura à mesa do seu apostolado. Ao rogar a Deus em oração: – O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, pedia não somente o pão do corpo, mas também o alimento da alma, como está registrado na alegoria da tentação no deserto: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. Na passagem inesquecível da multiplicação dos pães, os discípulos apresentam alguns pães e Jesus alimenta a multidão. Temos ali simbolizada a cooperação entre o ser humano e a Divina Providência, no mister de nutrir o espírito popular: os filhos oferecem as migalhas da boa vontade e o Pai realiza o milagre da multiplicação. Mas está na última ceia o clímax desse processo de conscientização dos discípulos sobre a necessidade do alimento espiritual. Em momento de profunda afetividade, Jesus parte o pão e o entrega aos discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo[2] . Oferece também vinho, dizendo: esse é o meu sangue, bebei todos dele. A comunhão amorosa se imortalizou e é lembrada por muitos na celebração do Corpus Christi.

Nessa alegoria, temos no pão – corpo de Cristo – a substância dos seus exemplos e no vinho – sangue de Cristo – a essência dos seus ensinamentos, que ele compartilhou nos sermões, nos diálogos com os que buscavam sua orientação e nos colóquios com os discípulos.

O banquete de Jesus

E Jesus prossegue alimentando o pensamento da humanidade por meio do Evangelho. Que alimento é esse que o Mestre nos oferece? São tônicos do sentimento, substâncias que asseguram a euforia interior de quem lê e aplica os seus ensinos. Com a prova da imortalidade pela sua ressurreição, ele nos oferta esperança. Com o ensino e o exemplo do perdão, nutre de paz a quem o imita. Insistindo na exortação à confiança em Deus e em nós mesmos, serve à mesa do seu repasto espiritual o precioso alimento da fé. Ao propor, carinhoso, o “amai-vos uns aos outros”, Jesus Cristo nos relembra que todos podemos doar uns aos outros o mais precioso alimento da alma, o amor com que mutuamente nos nutrimos quando unidos por laços de simpatia, amizade, amor com que mutuamente nos nutrimos quando unidos por laços de simpatia, amizade, afeto. E, ensinando-nos a orar, ele nos dá a chave de acesso ao inesgotável celeiro das energias espirituais com que Deus sustenta o universo, celeiro a que ele próprio, Jesus, recorria. O banquete da vida está servido. Quem deseja aproveitar?

*Edna faz parte da Diretoria do IEPT,
sendo atualmente 2ª tesoureira.

[1] 1 André Luiz. Nosso Lar. Psicografia Francisco Cândido Xavier. Ed. FEB.

[2] 2 Mateus, 26: 26. O Novo Testamento. Trad. J. F. Almeida. Ed. SBB. 3

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