Edna Maria Marturano*
O primeiro sermão de Jesus foi o Sermão do Monte. Havia ali uma grande multidão. O Mestre começou dizendo assim: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt, 5:3).
Como entender essa afirmação? O que Jesus queria dizer com “pobres de espírito”? Por que, entre as nove bem-aventuranças do Sermão do Monte, ele deu destaque à dos pobres de espírito, abrindo com ela o seu primeiro pronunciamento público? E por que ele prometia o reino dos céus a essas pessoas?
Uma frase revolucionária
Pensando no meio onde Jesus pregou e no poder do Mestre para atrair as multidões, podemos imaginar que para os poderosos do lugar ela soou como uma provocação.
Por quê? Primeiro, porque ele prometia um reino que não fazia parte do império romano, para um povo dominado por Roma. Segundo, porque entregava esse reino a uns pobres de espírito, grupo estranho ao qual não pertenciam as pessoas importantes do seu tempo, como os fariseus, por exemplo.
Quem são os pobres de espírito?
Na verdade, até hoje essa bem-aventurança causa certa estranheza. Que pobres são esses que vão herdar o reino dos céus?
Ao contrário do que alguns pensam, pobreza de espírito não é pobreza intelectual. Jesus jamais promoveu a ignorância. Foi ele mesmo que afirmou: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo, 8:32).
Mas, com certeza, ele não incluiu na sua primeira bem-aventurança aqueles que se acham sábios, sempre vaidosos e cheios de si. Jesus trazia boas novas, e quem pensa que já sabe costuma desprezar as novidades.
Assim, alguns tradutores dos evangelhos[1] entendem a pobreza de espírito como carência espiritual. Quem sente tal carência procura saciar sua fome de espiritualidade. E Jesus trazia esse alimento espiritual.
Simplicidade e humildade – os pobres de espírito segundo o Espiritismo
Na visão espírita[2], os pobres de espírito das palavras de Jesus são os simples de coração e humildes de espírito. Percebem a própria pequenez ante a grandeza de Deus, por isso são profundamente humildes diante do Criador.
A simplicidade diante do mundo vem como consequência. Humildade e simplicidade são duas virtudes que se completam, porque quem é humilde diante de Deus simplifica o modo como se conduz no mundo.
A humildade na relação com Deus influi em tudo que a pessoa sente, pensa e faz. Assim, para o humilde, não faz diferença, por exemplo, estar acima ou abaixo dos outros na ordem social. Ele se importa com a vontade de Deus e não com as posições transitórias na sociedade.
Entende que tudo que temos é empréstimo da divina providência. Por isso não se apega aos bens materiais.
Dessa maneira, cultiva gratidão ao Criador por tudo que Ele nos dá. Para expressar sua gratidão, busca ser fiel a Deus, se torna dócil, aceitando a vida como ela é e dando o melhor de si nos deveres de cada dia. Para dar o melhor de si, simplifica os próprios desejos, despojando-se de tudo que não seja necessário.
Simples de coração
É assim que a pessoa simples de coração descarta caprichos pessoais, ilusões de posse, apego a posições transitórias. Não faz questão de que sua opinião prevaleça, não quer parecer maior nem melhor que ninguém. Por outro lado, não se aflige com a opinião negativa dos outros. Para ela o que interessa é a aprovação da consciência diante de Deus.
Como resultado natural de se verem tão pequenos como todos somos, os humildes e simples são isentos de preconceitos. Dessa forma, para eles, as pessoas são iguais por sua filiação divina.
Com tudo isso, ficam livres da sobretaxa de aflições que costumam atormentar o ser humano. Não invejam as posses do vizinho, não se perturbam nas competições do trabalho, não cultivam orgulho, ambição, vaidade.
Nem por isso são desleixados. Ao contrário, querem sempre fazer o melhor que podem. Afinal, desejam ser fiéis a Deus.
São sinceros. Podem ser espontâneos, porque não precisam das mil e uma defesas que muitos erguem no esforço de impressionar as pessoas com uma imagem brilhante de si, ainda que nem sempre real.
Por que Jesus destina a esses pobres a posse do reino dos céus?
Sem as barreiras de preconceitos, ilusões e convenções sociais, as almas humildes e simples estão abertas ao aprendizado. Têm “olhos de ver”, são capazes de enxergar as bênçãos da vida nos seus detalhes mais simples.
Por isso, são naturalmente mais sensíveis aos ensinos de Jesus. Estão aptas a se apossarem do reino dos céus, isto é, compreender e incorporar à própria vida os princípios evangélicos pregados e exemplificados pelo Divino Mestre.
A primeira bem-aventurança é para os primeiros da fila na porta do céu
Porta do céu é só uma analogia. Como Jesus mesmo afirmou, o reino dos céus está dentro de nós.
Dessa forma, o Mestre ensinou com palavras e exemplos o passo a passo dessa construção interna, que propicia o estado de felicidade chamado “reino dos céus”.
Ele sabia que os humildes e simples tinham já meio caminho andado.
Cada um possuirá a extensão de céu que tiver construído dentro de si[3]. Aqueles que cultivam uma relação respeitosa, amorosa e fiel com Deus são os primeiros da fila para o acesso ao seu próprio céu interior.
[1] Ver, por exemplo, Frederico Lourenço, Bíblia Volume I – Os Quatro Evangelhos, p. 73-74, nota de rodapé.
[2] Allan Kardec dedicou O Capítulo VII do livro O Evangelho segundo o Espiritismo à bem-aventurança dos pobres de espírito.
[3] Emmanuel. Bênção de paz. Psicografia F. C. Xavier. Ed. GEEM.
